Há um fenómeno que surge inevitavelmente na nossa prática clínica: Porque é que o mesmo estímulo, aplicado no mesmo paciente, pode gerar respostas completamente diferentes?
A tendência é procurar a resposta na técnica do profissional, na forma como usa a agulha ou em pequenas alterações anatómicas do ponto escolhido. Mas, na verdade, a explicação está noutro lugar.
Não é um interruptor
Ao nível do corno dorsal da medula, não existe um sistema linear, previsível, tipo “liga/desliga”.
O que encontramos é um sistema altamente dinâmico, onde múltiplos circuitos estão constantemente a interagir desde:
1 – vias que facilitam a transmissão da dor a vias que inibem essa mesma transmissão;
2 – interneurónios inibitórios, que amortecem o sinal a interneurónios excitatórios, que o amplificam ou neurónios de projeção, que enviam a informação para níveis superiores.
Tudo isto a acontecer em simultâneo, com milhões de interações num rodopio quer não nos permite sequer compreender a escala.
O detalhe que muda tudo: o tipo de input que fazemos. Porque nem todos os estímulos são iguais, mesmo quando parecem.
O detalhe que muda tudo: o tipo de input
Cada tipo de fibra nervosa ativa circuitos diferentes:
fibras C → associadas a estímulos mais lentos, difusos, frequentemente dolorosos.
fibras Aδ → condução rápida, dor mais aguda e localizada.
fibras Aβ → estímulos mecânicos, muitas vezes não dolorosos.
Isto significa que pequenas variações no estímulo — intensidade, profundidade, contexto — podem mudar completamente quais os circuitos que são recrutados. E quando muda o circuito que recrutamos muda o resultado que observamos.
O que vemos na prática (e muitas vezes não explicamos)
Todos já observámos isto na nossa prática: a mesma técnica que alivia dor num paciente agrava noutro, sem que, aparentemente, tenha havido uma alteração relevante na aplicação.
Mas houve. Houve uma mudança no input, mesmo que subtil.
A implicação clínica
Isto obriga a uma mudança de foco por parte do profissional de saúde quando está a usar a agulha de acupuntura.
A questão deixa de ser:
👉 “Estou a aplicar bem a técnica?”
E passa a ser:
👉 “Que tipo de estímulo estou realmente a gerar no sistema nervoso?”
Porque não é a técnica que determina o resultado mas sim o input neural que criamos. E se não controlamos o input fica difícil controlar o output.

