Porque é que duas pessoas com a mesma dor podem responder de forma completamente diferente?

Porque é que duas pessoas com a mesma dor podem responder de forma completamente diferente?

Na prática clínica vemos isto constantemente.

Dois pacientes apresentam uma dor aparentemente semelhante. A mesma região. Intensidade parecida. Exames semelhantes.

Mas a resposta do organismo é completamente diferente.

Um recupera rapidamente.

Outro desenvolve fadiga, alterações do sono, ansiedade, hipervigilância ou sintomas digestivos que parecem não ter qualquer relação direta com a queixa inicial.

Também encontramos frequentemente pacientes que apresentam combinações aparentemente estranhas:

  • ansiedade e intestino irritável
  • fadiga e digestão lenta
  • sono superficial e sensação de alerta constante
  • palpitações e tensão muscular persistente
  • dor prolongada e dificuldade em recuperar

E muitas vezes surge a frase:

“Mas os exames estão normais.”

Talvez a questão seja que, durante muito tempo, aprendemos a olhar para estes sistemas de forma separada.

Coração de um lado.

Pulmões do outro.

Digestão noutro compartimento.

Imunidade numa área diferente.

E o cérebro algures no topo a comandar tudo.

Mas a neurociência moderna sugere uma visão diferente.

O organismo parece funcionar menos como uma coleção de peças independentes e mais como uma rede dinâmica de sistemas em comunicação constante.

O cérebro não observa apenas o mundo exterior

Existe uma ideia interessante na neurociência contemporânea:

o cérebro não monitoriza apenas o ambiente à nossa volta.

Monitoriza continuamente o estado interno do organismo.

A este processo chamamos interoceção.

A cada momento chegam sinais relacionados com:

  • frequência cardíaca
  • respiração
  • pressão arterial
  • estado digestivo
  • metabolismo
  • imunidade
  • tensão visceral
  • alterações químicas internas

Grande parte deste fluxo de informação ocorre sem consciência.

No entanto, mesmo sem nos apercebermos, estes sinais influenciam:

  • comportamento
  • emoções
  • tomada de decisão
  • perceção corporal
  • sensação de segurança ou ameaça

O cérebro está constantemente a perguntar:

“Como está o organismo neste momento?”

E talvez ainda mais importante:

“O que preciso de fazer para manter estabilidade?”

O sistema nervoso autónomo é mais do que simpático e parassimpático

Durante décadas aprendemos uma divisão relativamente simples:

Simpático:

“luta ou fuga”

Parassimpático:

“repouso e digestão”

Apesar de útil para introdução, este modelo é hoje claramente insuficiente.

Atualmente fala-se cada vez mais em redes cérebro-viscerais integradas.

Entre elas destaca-se a Central Autonomic Network (CAN).

Esta rede envolve estruturas como:

  • ínsula
  • sistema límbico
  • hipotálamo
  • tronco cerebral
  • núcleos autonómicos
  • nervo vago

Estas estruturas recebem informação do corpo, interpretam contexto e geram respostas adaptativas.

Não regulam apenas órgãos.

Regulam estados fisiológicos.

O organismo responde em padrões, não em peças isoladas

Quando esta rede integra informação, o resultado não é apenas aumentar ou diminuir atividade simpática.

São produzidos padrões adaptativos que podem alterar:

  • frequência cardíaca
  • ventilação
  • motilidade digestiva
  • inflamação
  • metabolismo
  • tónus muscular
  • atenção
  • comportamento

Talvez por isso alguns pacientes desenvolvam simultaneamente sintomas aparentemente sem ligação:

dor persistente, alterações digestivas, ansiedade, fadiga ou hipervigilância.

Não porque existam vários problemas independentes.

Mas porque vários sistemas estão a responder em conjunto.

E se o sintoma não for o problema?

Esta talvez seja uma das mudanças mais interessantes.

Muitas vezes procuramos imediatamente:

“qual o tecido envolvido?”

E essa pergunta continua a ser importante.

Mas pode não ser suficiente.

Porque alguns sintomas parecem representar algo maior:

a expressão de um sistema que perdeu capacidade adaptativa.

Ou, dito de outra forma:

um organismo que perdeu flexibilidade regulatória.

Quando a capacidade de adaptação diminui, o problema pode deixar de ser apenas estrutural.

Pode passar a envolver a forma como o organismo integra informação, interpreta sinais e gera respostas.

Talvez a pergunta clínica esteja a mudar

Durante muito tempo perguntámos:

“Onde está a lesão?”

Talvez em alguns casos seja igualmente importante perguntar:

“Como está a funcionar a capacidade do organismo em regular-se?”

Porque a neurobiologia moderna está lentamente a mudar a forma como entendemos:

  • dor
  • stress
  • fadiga
  • sintomas persistentes
  • doença crónica

E talvez também mude a forma como pensamos a intervenção clínica.

Não para substituir modelos anteriores.

Mas para os integrar numa visão mais ampla do organismo.

Porque por vezes compreender o sistema é tão importante como compreender a estrutura.

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